Caetano e Bethânia encerram turnê nacional em Porto Alegre em tom de alegria e gratidão

Caetano e Bethânia encerraram turnê neste sábado (22) na Arena do Grêmio. Foto: Camila Cunha/Correio do Povo

Neste sábado (22), quando o motorista de aplicativo que peguei até a Arena do Grêmio quase se recusou a me deixar no estádio por conta do trânsito congestionado, eu me toquei do quão importante e lotado seria este show de Caetano Veloso e Maria Bethânia – afinal, 18 shows em nove cidades brasileiras e 500 mil ingressos vendidos já é um feito histórico. Ao sair do espetáculo, o engarrafamento se repetiu, fazendo o público precisar se distanciar do estádio para conseguir voltar para casa. Caminhei em silêncio por alguns bons minutos, o que foi bom e necessário para processar a excelente, graciosa e impactante apresentação que tinha acabado de ver.

Pessoas de todo o Brasil estiveram presentes na Arena para conferir o encerramento da maior turnê nacional de 2024 dos irmãos mais conhecidos da MPB, que não cantavam juntos há 46 anos. Com direção musical de Lucas Nunes e Jorge Helder, o show teve um tom de uma alegre e grata despedida, com os músicos visivelmente emocionados, inclusive Bethânia e Caetano (Vi relatos de pessoas que viram a apresentação em outros estados e que acharam um show frio, mas aqui em Porto Alegre definitivamente não foi). Me chamou atenção o bom humor da intérprete e o constante olhar de admiração de Caetano por ela, que foi a responsável por levá-lo ao Rio de Janeiro nos anos 1960, onde a carreira dos dois deslanchou.

No repertório, algumas homenagens, como “Os Mais Doces Bárbaros”, remetendo ao grupo formado pelos dois, junto com Gilberto Gil e Gal Costa, em 1976 para comemorar os dez anos de carreira de cada artista. Gal, que morreu em 2023 e nos deixa uma lacuna significativa até hoje, também foi lembrada em “Baby” e “Vaca Profana”.

O show também teve outros momentos interessantes: Sambas da Mangueira lembraram quando a escola foi a campeã carioca de 2016 com o enredo sobre Maria Bethânia. Além disso, o louvor “Deus Cuida de Mim”, de autoria do Pastor Kleber Lucas, permaneceu no setlist e continua sendo a canção menos querida do repertório, mesmo não sendo uma música ruim. E uma música inédita de Caetano Veloso foi apresentada pela segunda vez: “Um Baiana” foi composta e concluída durante a turnê, e promete ser um novo hit do artista. “Fé”, de IZA, também ganhou uma versão dos irmãos, que super combinou com suas vozes e seus conceitos artísticos.

O espetáculo em Porto Alegre durou apenas duas horas. Senti falta de músicas como “O Quereres”, “Um Índio”, “Vida”, “Onde o Rio é Mais Baiano” e outras, mas em compensação, houve uma surpresa: a introdução de “Menino Deus” – inspirada em uma placa de rua daqui da capital gaúcha em que indicava a direção do bairro da Zona Sul -, seguida de “Odara”, em uma versão maravilhosamente apoteótica.

Fazia tempo que não ia a um show com uma qualidade sonora tão impecável. Mas para além da celebração musical, “Caetano & Bethânia” foi um testemunho público de um afeto entre irmãos. Unindo arte e amor, a apresentação histórica já deixa saudades – e ainda vai deixar por muito tempo.